Discurso de formatura da Turma General Argus Fagundes Ourique Moreira

Também devemos lembrar daqueles que aqui dentro se encarregaram da nossa formação como militares, que se incumbiram da missão de nos preparar para os desafios que encontraremos como oficiais do Exército Brasileiro. Ao Corpo de Alunos, os nossos sinceros agradecimentos por todos estes anos de trabalho para que aprendêssemos o real sentido de companheirismo, lealdade, honra, hierarquia e disciplina.

Quando entramos pelo portão das armas deste Instituto, nós ainda não sabíamos que os anos que viriam nos testariam a cada momento, numa incessante e dura rotina de aulas, treinamentos físicos, formaturas, acampamentos, alojamentos, punições, TD’s, IP’s, PFC’s, VI’s, VE’s, VC’s, VF’s, provas atrás de provas, durante esses últimos 5 anos que aqui passamos. Não foi fácil.

Aos primeiros dias no Instituto, dá-se o nome de “adaptação”. Imaginem jovens vindos dos mais diversos estados deste país, do Rio Grande do Sul ao Pará, com poucos ou nenhum conhecido dentre os que aqui ingressavam, muitos vindo pela primeira vez ao Rio de Janeiro, deixando suas casas a milhares de quilômetros em busca do sonho de se formar engenheiro. Não foi fácil.

Imaginem largar o conforto de sua casa para vir morar em um alojamento com jovens cuja única relação com você até então foi a de concorrente! Imaginem o que é cumprir horários à risca, arrumar camas de maneira impecável, vincos aprumados, barbas e coques feitos, incessantes horas de ordem unida, prestar continência, instruções militares infindáveis, liderar seus pelotões, correr para entrar em forma, correr para almoçar, correr para tomar banho, correr para se vestir e repetir isto todos os dias sob os 43 graus com que o verão do Rio de Janeiro nos recepcionava. Muitos de nós sequer haviam saído de casa ainda. Não foi fácil.

Mas foi exatamente ali, naqueles primeiros dias, que nós nos demos conta do que de mais valioso nós encontraríamos nesta Casa e do que esta formatura de fato celebra: amizades.

Laços que se criaram dia após dia nestes anos que aqui passamos. Se criaram nas noites de conversas e brincadeiras nos alojamentos. Nos estudos nas vésperas das incontáveis provas que aqui tivemos, no nosso famoso “jângal”. Se criaram quando estávamos molhados, com sede e com fome no acampamento da Marambaia. Quando estávamos exaustos nas marchas da patrulha, com frio no acampamento da montanha ou aflitos na câmara de gás. Se criaram em cada uma dessas situações quando nós tivemos alguém deste auditório nos ensinando Cálculo ou Álgebra Linear tarde da noite, dividindo conosco a água do seu cantil, nos ajudando a carregar a mochila e o “pau-de-fogo” ou nos abanando o rosto para apaziguar o efeito do lacrimogênio. Não foi fácil.

Amizades que se criaram nas formaturas de quarta-feira, nos bailes, nos serviços de plantões e sentinelas, nos pernoites, nas DRS’s, II’s, IA’s e detenções. Se criaram às 6:30 da manhã na Praia Vermelha com as ginásticas básicas, as corridas em forma, as canções vibrantes, a “Sara e o Aluno” tendo inúmeras discussões, no nosso vôlei e no nosso futebol. Nos cafés da manhã, almoços, jantares e ceias juntos no rancho. Se criaram quando voltávamos de casa nas férias e nos sentíamos acolhidos no momento em que nos encontrávamos. Se criaram sempre que buscávamos ajuda, sempre que queríamos rir, sempre que precisávamos de uma companhia ou de um ombro amigo, e aqui nós encontrávamos. É isso que faz cada um de nós entender, melhor que qualquer um que escute as nossas histórias, que aqui nós tivemos uma escola para a vida. E tudo isso que nós passamos juntos é o que nos torna únicos no dia de hoje como turma e o que faz com que cada um dos senhores que aqui nos escuta possa ter a certeza de que nesses laços está o real valor deste Instituto.

Foi assim que nós aprendemos a respeitar e a admirar quem hoje se forma ao nosso lado, e permite que falemos: ”Meus queridos amigos, foi um prazer e uma honra sem tamanho dividir esses anos com vocês. Não foi fácil, mas com vocês, eu faria tudo de novo”.

Meus amigos, independente de seguirmos no meio civil ou na caserna, que nós nunca nos esqueçamos da responsabilidade, que hoje é colocada em nossos ombros, de ser exemplo, de pensar grande e de levar este país, que ainda tem tanto a se fazer, para frente. Que nós sejamos capazes de deixar de lado o orgulho e a vaidade, para olhar para além das recompensas e vislumbrar como fruto do nosso trabalho um Brasil mais justo e próspero, um país que queríamos para nós mesmos, mas que vamos construir para os nossos filhos.

Que nós levemos na cabeça o saber, no peito a dignidade e nos braços a coragem para enfrentarmos os vícios e as mazelas que assolam este País. Que não sejamos omissos, e que nunca deixemos de acreditar que se podemos sonhar, podemos fazer. E se em algum momento duvidarmos de nós mesmos, nos perguntemos: “Se não nós, quem o fará?“. Que as homenagens e o estrelato fiquem para os outros, e que para nós fique a glória muda de um trabalho incansável, aquele que é o único responsável pelos feitos duradouros e valiosos. Nós vamos para frente, Engenheiros Militares!

Meus caros amigos, que estes anos aqui dentro nos sirvam de alento sempre que precisarmos lembrar do que somos capazes de conquistar, e que os desafios futuros venham com força, porque nós vamos com tudo para cima deles! Que este dia fique gravado em nossas memórias e na história deste Instituto. Uma excelente noite a todos, Brasil acima de tudo!